Principais desafios dos Psicólogos Educacionais nas escolas públicas do Rio de Janeiro
A psicologia educacional ocupa uma posição estratégica na construção de escolas mais inclusivas, democráticas e capazes de promover o desenvolvimento integral dos estudantes. No Rio de Janeiro, entretanto, a atuação dos psicólogos educacionais é marcada por desafios complexos, especialmente nas redes públicas de ensino.
As desigualdades sociais, a violência territorial, a precariedade estrutural e a insuficiência de profissionais exigem uma prática que ultrapasse o atendimento individual e considere as condições sociais, familiares e institucionais que influenciam a aprendizagem.
A implementação da legislação e insuficiência de profissionais
A Lei nº 13.935/2019 determina a presença de profissionais de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica. Apesar desse marco legal, sua implementação ocorre de maneira desigual entre municípios e estados.
No Rio de Janeiro, um dos principais obstáculos é transformar a previsão legal em políticas permanentes, com concursos públicos, equipes suficientes, condições adequadas de trabalho e definição clara das atribuições profissionais.
Quando há poucos psicólogos para atender um grande número de escolas, o trabalho tende a se concentrar em situações emergenciais, reduzindo as possibilidades de prevenção e acompanhamento contínuo.
Desigualdade social, violência e sofrimento psíquico
As escolas públicas fluminenses estão inseridas em contextos sociais bastante heterogêneos. Enquanto algumas unidades enfrentam problemas relacionados à pobreza, à insegurança alimentar e à falta de acesso a serviços públicos, outras convivem com situações de violência armada, conflitos territoriais e interrupções frequentes das atividades escolares.
Esses fatores podem produzir medo, estresse, sofrimento psíquico, dificuldades de concentração e evasão. O psicólogo educacional precisa compreender que tais manifestações não são apenas problemas individuais do estudante, mas também respostas a condições sociais concretas.
Por isso, sua atuação deve articular a escola com a assistência social, a saúde, os conselhos tutelares e outras políticas públicas.
Superação da medicalização da aprendizagem
Outro desafio consiste em evitar a medicalização e a patologização das dificuldades escolares. Com frequência, estudantes que apresentam baixo rendimento, agitação, tristeza ou conflitos de comportamento são encaminhados para avaliação clínica, como se a origem do problema estivesse exclusivamente no indivíduo.
Essa perspectiva pode ocultar fatores como metodologias inadequadas, relações escolares fragilizadas, preconceito, dificuldades familiares ou ausência de recursos pedagógicos. De acordo com as orientações do Conselho Federal de Psicologia, o psicólogo deve analisar os processos de escolarização de forma crítica e institucional, contribuindo para modificar práticas e relações que produzem exclusão.
Diversidade, inclusão e direitos humanos
A diversidade presente nas escolas públicas também exige preparo técnico e compromisso ético. Questões relacionadas ao racismo, à desigualdade de gênero, à orientação sexual, à deficiência, à religião e às diferenças culturais podem afetar o sentimento de pertencimento e o desempenho escolar.
No Rio de Janeiro, onde convivem diferentes realidades territoriais e culturais, o psicólogo precisa colaborar para a construção de práticas antirracistas, inclusivas e não discriminatórias.
Isso envolve apoiar professores, promover espaços de escuta, estimular a participação estudantil e fortalecer políticas de convivência, sem reduzir a diversidade a ações pontuais ou meramente comemorativas.
Articulação com a comunidade escolar
A relação com professores, gestores e famílias constitui outro aspecto delicado. Muitos profissionais da educação esperam que o psicólogo resolva rapidamente problemas disciplinares ou realize atendimentos clínicos dentro da escola.
Ao mesmo tempo, algumas famílias podem demonstrar desconfiança ou dificuldade de participar do acompanhamento escolar, especialmente quando enfrentam jornadas extensas de trabalho, insegurança econômica ou experiências anteriores de discriminação institucional.
Cabe ao psicólogo esclarecer sua função, preservar o sigilo profissional, estabelecer limites éticos e construir ações coletivas. Reuniões, grupos de reflexão, projetos de prevenção e estratégias de mediação de conflitos podem ampliar os resultados do trabalho.
Cuidado com os profissionais da educação
A saúde mental dos próprios trabalhadores da educação merece atenção. Professores e gestores lidam diariamente com excesso de demandas, falta de recursos, pressão por resultados e situações de violência.
Sem espaços institucionais de escuta e planejamento, o sofrimento desses profissionais pode se intensificar e prejudicar o vínculo com os estudantes. O psicólogo educacional não deve assumir o papel de terapeuta de toda a comunidade escolar, mas pode contribuir para a identificação de fatores de risco, para a criação de redes de apoio e para o desenvolvimento de ações institucionais de cuidado e prevenção.
Caminhos para uma atuação mais efetiva
Diante desses desafios, a atuação do psicólogo educacional nas escolas públicas do Rio de Janeiro deve ser coletiva, preventiva e integrada às políticas sociais. É necessário investir na regulamentação local da Lei nº 13.935/2019, ampliar equipes multiprofissionais, garantir formação continuada e criar protocolos de atuação que respeitem as características de cada território.
Também é fundamental produzir diagnósticos institucionais, acompanhar indicadores de evasão e violência, ouvir os estudantes e avaliar continuamente as ações desenvolvidas. A psicologia, nesse contexto, contribui mais efetivamente quando deixa de ser vista apenas como atendimento individual e passa a participar da construção das políticas e práticas escolares.
Os psicólogos educacionais que trabalham em escolas públicas do Rio de Janeiro enfrentam desafios relacionados à desigualdade, à violência, à insuficiência de recursos, à medicalização e à necessidade de promover inclusão.
Apesar das limitações, sua presença pode fortalecer a democracia escolar e ampliar a proteção de crianças e adolescentes. Para isso, é indispensável que esses profissionais tenham condições institucionais de trabalho e atuem em parceria com a comunidade, reconhecendo que a aprendizagem e o desenvolvimento dependem tanto das características individuais quanto das oportunidades sociais oferecidas aos estudantes.
Referências:
BRASIL. Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019. Dispõe sobre a prestação de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 12 dez. 2019. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/l13935.htm. Acesso em: 18 ago. 2026.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) na educação básica. 2. ed. Brasília, DF: CFP, 2019. Disponível em: https://site.cfp.org.br/publicacao/referencias-tecnicas-para-atuacao-de-psicologasos-na-educacao-basica/. Acesso em: 18 ago. 2026.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Psicologia, educação e direitos humanos. Brasília, DF: CFP, 2013. Disponível em: https://site.cfp.org.br/. Acesso em: 18 ago. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira: 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9221-sintese-de-indicadores-sociais.html. Acesso em: 18 ago. 2026.
UNICEF. Cenário da exclusão escolar no Brasil: um alerta sobre os impactos da pandemia da COVID-19 na educação. Brasília, DF: UNICEF Brasil, 2021. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/relatorios/cenario-da-exclusao-escolar-no-brasil. Acesso em: 18 ago. 2026.




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Após 17 anos na publicidade, onde cultivei criatividade e resiliência, decidi mudar de rota. Em 2022, iniciei a graduação em Psicologia, encontrando meu verdadeiro propósito.
Atualmente na mediação escolar, acompanho crianças e adolescentes, focando no acolhimento e na autonomia. Meu objetivo é ser suporte e escuta, ajudando cada jovem a descobrir sua própria força e brilho no mundo.
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