Quando a infância e a adolescência também adoecem: o que precisamos saber sobre transtorno borderline e transtorno bipolar

 

Quando falamos em transtornos de personalidade ou em transtornos do humor, muitas pessoas imaginam que estamos falando exclusivamente de adultos. Existe a ideia de que crianças e adolescentes ainda estão "formando a personalidade" e, por isso, não poderiam apresentar condições como Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ou Transtorno Bipolar. A realidade é um pouco mais complexa.

Hoje sabemos que esses transtornos podem, sim, se manifestar durante a infância e, principalmente, na adolescência. Isso não significa que qualquer mudança de humor, impulsividade ou comportamento intenso seja um transtorno. Pelo contrário. É justamente porque essa fase da vida é marcada por tantas transformações que a avaliação clínica precisa ser cuidadosa, criteriosa e baseada no desenvolvimento da criança ou do adolescente.

Nem toda intensidade emocional é um transtorno

A adolescência é um período de profundas mudanças biológicas, cognitivas e sociais. O cérebro ainda está em desenvolvimento, a identidade está sendo construída e as relações interpessoais ganham um peso enorme.

É esperado que existam conflitos, oscilações de humor, questionamentos, maior sensibilidade emocional e comportamentos impulsivos em alguns momentos.

O desafio dos profissionais é diferenciar aquilo que faz parte do desenvolvimento típico daquilo que representa sofrimento persistente, prejuízo importante no funcionamento e um padrão que se mantém ao longo do tempo.


O transtorno borderline pode aparecer antes dos 18 anos?


Durante muito tempo acreditou-se que o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline não deveria ser realizado em adolescentes. Essa visão mudou nos últimos anos.

O próprio DSM-5 permite o diagnóstico antes dos 18 anos quando os sintomas permanecem por pelo menos um ano, não podem ser explicados apenas pelas mudanças típicas da adolescência e provocam prejuízo significativo na vida do jovem. Diversos estudos mostram que o diagnóstico pode ser confiável quando realizado por profissionais capacitados e dentro de uma avaliação ampla.

Isso não significa "rotular" um adolescente. Significa reconhecer precocemente um padrão de sofrimento que pode ser tratado, reduzindo riscos futuros como automutilação, tentativas de suicídio, abandono escolar, uso de substâncias e dificuldades importantes nos relacionamentos.


E o transtorno bipolar?


O transtorno bipolar também pode surgir na infância e na adolescência, embora seu diagnóstico seja um dos mais desafiadores da psiquiatria infantil.

Os episódios de mania nem sempre aparecem da mesma forma que nos adultos. Em crianças e adolescentes, podem existir irritabilidade intensa, redução importante da necessidade de sono, aumento exagerado da energia, impulsividade, aceleração do pensamento e comportamentos de risco.

Como vários desses sintomas também aparecem em outros transtornos, como TDAH, depressão e até em momentos normais do desenvolvimento, o diagnóstico exige acompanhamento cuidadoso e avaliação longitudinal.

Borderline e bipolaridade são a mesma coisa?

Não.

Embora ambos possam envolver instabilidade emocional, eles têm mecanismos diferentes.

No transtorno bipolar, as alterações de humor costumam ocorrer em episódios que podem durar dias ou semanas, alternando períodos de mania, hipomania e depressão.

Já no transtorno borderline, as mudanças emocionais geralmente são muito rápidas e frequentemente desencadeadas por situações interpessoais, como conflitos, sensação de rejeição ou medo de abandono. Além disso, questões relacionadas à identidade, impulsividade e aos vínculos afetivos costumam ocupar um lugar central no quadro clínico.


O papel da família e da escola

Pais e professores não precisam identificar diagnósticos, mas podem perceber quando algo está além do esperado.

Mudanças bruscas e persistentes no comportamento, isolamento intenso, automutilação, explosões emocionais frequentes, sofrimento constante, queda importante no rendimento escolar e dificuldades graves nos relacionamentos são sinais que merecem atenção.

Quanto mais cedo ocorre uma avaliação especializada, maiores são as possibilidades de intervenção e melhores tendem a ser os desfechos ao longo da vida.

Diagnóstico não é destino

Receber um diagnóstico costuma gerar medo nas famílias. Entretanto, um diagnóstico bem realizado não serve para definir quem uma criança ou adolescente é. Ele serve para orientar intervenções mais eficazes.

Psicoterapia, apoio familiar, intervenções escolares e, quando necessário, acompanhamento psiquiátrico podem reduzir significativamente o sofrimento e favorecer um desenvolvimento mais saudável.

Mais importante do que procurar um rótulo é compreender a criança ou o adolescente em sua totalidade, considerando sua história, seu contexto, seus vínculos e suas potencialidades.
A infância e a adolescência não são fases livres de sofrimento psíquico. Reconhecer isso não significa patologizar o desenvolvimento, mas garantir que quem precisa de ajuda possa recebê-la no momento certo.

Referências

ABDULLAH, S. Systematically Informed Literature Review: What is the Prevalence of Borderline Personality Disorder (BPD) in Adolescents, 13–17, using DSM-5 Criteria? European Psychiatry, 2024. 

GUILÉ, J. M. et al. Borderline personality disorder in adolescents: prevalence, diagnosis, and treatment strategies. Adolesc Health Med Ther, 2018.

DURDURAK, B. B. et al. Understanding the development of bipolar disorder and borderline personality disorder in young people: a meta-review of systematic reviews. Psychological Medicine, 2022. 

ZHANG, Y. et al. Research Status in Clinical Practice Regarding Pediatric and Adolescent Bipolar Disorders. Frontiers in Psychiatry, 2022.

ZHANG, Y. et al. Efficacy of psychological interventions for adolescents with borderline personality disorder: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Psychiatry, 2026.



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