Como brincar fortalece o vínculo: quando a brincadeira também faz parte da terapia

 


Quando pensamos em terapia, muita gente imagina uma sala silenciosa, duas pessoas conversando e muitas perguntas. Mas, quando falamos de crianças, o caminho costuma ser bem diferente. Muitas vezes, a conversa acontece enquanto um carrinho passeia pelo chão, uma boneca toma chá ou um dinossauro enfrenta um dragão. E isso não acontece por acaso.

Brincar é a linguagem natural da infância. É por meio das brincadeiras que a criança conhece o mundo, experimenta situações, aprende a resolver problemas, desenvolve a criatividade e expressa sentimentos que ainda não consegue colocar em palavras.

Por isso, o brincar não é apenas um passatempo dentro da terapia. Ele faz parte do próprio processo terapêutico.

Antes de qualquer técnica, existe uma relação

Nenhuma intervenção funciona se a criança não se sentir segura. Antes de ensinar habilidades, trabalhar emoções ou enfrentar dificuldades, o terapeuta precisa construir um vínculo. E poucas coisas aproximam tanto duas pessoas quanto brincar juntas.

O pediatra e psicanalista Donald Winnicott afirmava que a psicoterapia acontece na sobreposição de duas áreas do brincar: a da criança e a do terapeuta. Quando esse encontro acontece, cria-se um espaço seguro onde a criança pode se expressar, experimentar e elaborar suas vivências (WINNICOTT, 1975).

A brincadeira conta histórias

Muitas crianças ainda não conseguem dizer frases como "estou ansioso", "estou com medo" ou "estou triste". Mas elas mostram isso durante a brincadeira.

Uma criança pode fazer um personagem se esconder o tempo todo. Outra pode repetir várias vezes uma cena de separação. Algumas criam heróis invencíveis, enquanto outras preferem brincar de cuidar de alguém machucado.

Essas histórias não devem ser interpretadas de forma automática, mas oferecem pistas importantes sobre como aquela criança está percebendo o mundo e vivendo suas experiências. O brincar cria um ambiente de confiança que favorece a expressão emocional e fortalece o vínculo terapêutico, permitindo que a criança comunique simbolicamente aquilo que ainda não consegue verbalizar.

Aprender também pode ser divertido

Durante as brincadeiras, é possível desenvolver diversas habilidades importantes para o dia a dia.

Esperar a vez, lidar com frustrações, resolver conflitos, seguir regras, controlar impulsos, reconhecer emoções, praticar a comunicação e fortalecer a autonomia são apenas alguns exemplos.

Virginia Axline, uma das pioneiras da ludoterapia, defendia que a experiência de brincar é terapêutica porque oferece à criança um relacionamento seguro, no qual ela pode ser quem é, no seu próprio ritmo e da sua própria maneira (AXLINE, 1947).

O mais interessante é que tudo isso acontece de forma natural. A criança aprende enquanto está envolvida em algo que faz sentido para ela.

O vínculo continua em casa

Pais e responsáveis também podem fortalecer a relação com seus filhos por meio das brincadeiras.

Não é preciso comprar brinquedos caros ou criar atividades elaboradas. Muitas vezes, vinte minutos de atenção verdadeira já fazem diferença.

Sentar no chão, montar blocos, desenhar, inventar histórias ou brincar de faz de conta comunica para a criança uma mensagem muito importante: "eu gosto de estar com você".

Esse sentimento de conexão fortalece a autoestima, melhora a comunicação e cria uma base segura para enfrentar desafios.

Brincar é coisa séria

À primeira vista, pode parecer que a criança está "apenas brincando". Mas, por trás de cada desenho, construção ou faz de conta, existe muito desenvolvimento acontecendo.

Na terapia, brincar é uma forma de acolher, compreender, ensinar e fortalecer vínculos.

Porque, para muitas crianças, aquilo que ainda não cabe nas palavras encontra espaço dentro da brincadeira. E, muitas vezes, é justamente ali que começa o processo de transformação.

Referências

AXLINE, Virginia M. Play Therapy. Boston: Houghton Mifflin, 1947.

LANDRETH, Garry L. Play Therapy: The Art of the Relationship. 3. ed. New York: Routledge, 2012.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

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